quarta-feira, janeiro 03, 2007

Revejam 'Entreatos' e entendam quem é Lula

Postado no blog do jornalista TÃO GOMES PINTO (http://taogomespinto.blig.ig.com.br)

Existem dois caminhos para voce se aproximar de Luiz Inácio Lula da Silva.
Um é convivendo com ele no dia-a-dia. Mas esse é reservado a uns poucos. Dona Marisa Letícia, claro.

Ou talvez exercendo as funções de um Gilberto Carvalho, que, visto por mim à distância, parece, hoje, o assessor mais próximo.

Pelo caminho da aproximação via interposta pessoa, acho difícil alguém chegar a conhecer, de fato, quem é esse homem.

Há o Luiz Inácio dos gestos e atitudes de carinho. Ele é pródigo nesse departamento das relações humanas.

Hà tambem o das 'broncas', dos chamados 'esporros'.

Lula sem dúvida gosta das pessoas, gosta de ter sempre gente - se possível mais uma pessoa à sua volta.

Poucos, como ele, tem a competência para, com uma simples frase, quebrar toda a tensão que pesa em determinados ambientes e/ou situações.

Ele não faz o perfil do político do cochicho ao pé de ouvido, ou que dá preferência às conversas tetê-a-tete.

É do tipo que só fecha a porta para uma conversa a dois, quando um dos interlocutores - ou seja, ele - já decidiu o resultado da conversa.

Antes desse momento de decisão, prefere a roda de consultores, assessores, aspones, o que for.

Não que necessariamente preste atenção no que dizem. Mas, no meio de um reunião, é capaz de capturar no ar, em meio ao tumulto aparente, a frase meio solta, que ficou perdida na algaravia da reunião.

Lula guarda essa frase com cuidados especiais.

Alimenta-a durante algum tempo como se fosse um pássaro raro. Sabe que vai precisar dela - da frase ou da idéia nela embutida - mais tarde.

Sua simpatia e espontaneidade são irradiantes. Ele sabe como brincar com as pessoas sem machuca-las, tem uma habilidade digna de um ex-torneiro mececânico para soltar seus palavrões sem ofender diretamente a ninguém.

Palavrões saem da sua boca com a naturalidade e ficam como que boiando no ar. Não são direcionados, flutuam.

E embora ele tenha adquirido a fama de indeciso, de vacilante, uma imagem que as oposições fizeram o possivel para grudar na sua figura, é ele quem manda, é ele quem decide.

As vezes demora um pouco. Mas quando põe o rosto entre as mãos e fica nessa posição dois, tres, dez segundos, e sai cantarolando um sambinha da velha guarda, podem crer, que ele está tomando, ou melhor, já tomou, sua decisão.

Esse Luiz Inácio Lula da Silva está à disposição nas locadoras de DVDs para quem quiser ver ou rever o trabalho notável da equipe de João Moreira Salles, o filme 'Entreatos''

Eu aproveitei o dia da posse e a chuva insistente em Brasilia no dia 1 de janeiro para reencontrar-me com esse personagem para mim ainda inexplicado e eu, diria mais, inexplicável.

Foi um reencontro importante.

Lula vai ter um segundo mandato. E, embora o filme trate da primeira campanha, mais do que nunca ele é indicativo de como deverá se comportar o presidente agora, depois da reeleição.

A campanha dura para se reeleger, os embates, as ofensas recebidas e algumas devolvidas, haviam feito com que eu deixasse escapar da memória uma parte grande das imagens que tanto me impressionaram quando assisti 'Entreatos' pela primeira vez.

A tal coisa da indecisão, do homem que tinha a cabeça feita pelo Zé Dirceu, ou que se deixou conduzir como um bobalhão pelas mãos sem dúvida imaginosas de um Duda Mendonça, que seria o inventor do ' Lulinha Paz e Amor', tudo isso desmorona, não fica versão sobre versão, pedra sobre pedra, se você estiver disposto a rever o filme de João Moreira Salles com os olhos voltados para o futuro, para o segundo governo Lula, que deverá ser muito melhor conduzido do que o primeiro.

Se alguem fez a cabeça de alguem, foi Lula que fez a de Dirceu. E foi Lula que captou a mensagem do 'Lulinha, Paz e Amor' e decidiu usa-la no momento em que a sua intuição determinou.

Já se tentou transformar 'Entreatos' numa espécie de 'filme denúncia. Alguém, em editorial, lembrou que toda a 'quadrilha' denunciada pelo procurador Antonio Fernando, aparece no filme.

De fato, aparece. Mas entra muda e sai calada.

Inclusive, numa das cenas o eterno 'conspirador' José Dirceu revela seus temores que as imagens gravadas por Moreira Salles fossem parar em algum arquivo implacável de algum inimigo feroz do regime.

Mas sua intenvenção fica nisso, e numa piada de Lula dizendo que todo mundo gostaria de saber o que fez Dirceu na sua temporada cubana.

Aliás, seria importante lembrar que os citados 'quadilheiros' não só entram mudos e saem calados do filme, como sairam do próprio novo governo Lula.

Dizem que Lula, sem Dirceu, Palocci, Gushiken e Cia. está sozinho.

Na minha opinião essa solidão só fará bem a Lula. Naquela hora em que ele acende a cigarrilha e fica pensando, não terá ninguèm dando paplite ao seu lado.

E fica quase explícito no filme que esses são os 'momentos' de Lula.

Recomendo vivamente aos meus raros parceiros deste blog: assistam novamente o 'Entreatos'. Aqueles que por acaso não viram o filme, corram à locadora rápído.

O verdadeiro Lula está lá. Nas falas, nas análises políticas, e especialmente nos momentos de silêncio, quando, percebe-se, ele reflete antes de fazer um comentário.

É uma aula de política, acima de questões partidárias, acima de ideologias.

Uma aula dada por um homem que o destino escolheu para uma missão que às vezes parece impossível. Até para ele.

Governar o Brasil.

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