sexta-feira, agosto 03, 2007

Vale a pena este artigo!

Publicado no site http://www.observatoriodaimprensa.com.br/



RESCALDOS DA TRAGÉDIA
A primeira vítima é a verdade. Outra vez

Por Luciano Martins Costa em 31/7/2007


A imprensa brasileira reescreveu, nos últimos dias, o sucesso literário de Philip Knightley, no qual o autor australiano, que fez carreira brilhante no Sunday Times da Inglaterra, demonstra que as informações sobre guerras na modernidade sempre foram manipuladas.

Desde a guerra da Criméia – entre 1854 e 1856, quando se deu pela primeira vez o uso intensivo do telégrafo elétrico – até a Guerra do Vietnã, constatou Knightley, os relatos dos repórteres eram distorcidos pelos editores de jornais para auxiliar a propaganda de guerra dos governos envolvidos. No tempo da internet, declarou o jornalista há dois anos durante encontro de repórteres em Londres, a manipulação dos fatos de guerra continua predominando, determinada por interesses políticos e econômicos dos controladores da mídia. Ele assegura que, ainda hoje, a primeira vítima de uma guerra é a verdade.

O primeiro golpe

A imprensa brasileira, em sua representação hegemônica, tentou plantar, durante os primeiros dias da cobertura da tragédia ocorrida em 17/7 em Congonhas, a tese segundo a qual o Airbus que fazia o vôo JJ 3054 havia derrapado na pista principal do aeroporto, que teria sido irresponsavelmente liberada mesmo sem as ranhuras que deveriam facilitar o escoamento da água das chuvas. A verdade recebeu aí o primeiro golpe.

Na cauda dessa primeira versão, a imprensa amarrou a interpretação segundo a qual o acidente era a culminância de uma sucessão de problemas na aviação civil, à qual se havia convencionado chamar "apagão aéreo". Os fatos diriam que a verdade estava novamente sendo violentada. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de fato, havia demonstrado durante os últimos doze meses inabilidade para garantir o funcionamento seguro, confortável e pontual do setor, mas a responsabilidade das duas empresas aéreas que dominam o mercado – TAM e Gol – não poderia ter sido colocada em segundo plano nas análises sobre a questão.

Os ganhos das duas empresas com a exploração desmedida dos aeroportos mais rentáveis do país, em especial o de Congonhas, foram estampados em todos os jornais nos últimos dias da semana passada. As perdas que as duas empresas tiveram após a tragédia do dia 17 são o atestado de que, no mínimo, a imprensa deveria ter investigado com mais desprendimento as causas do estresse dos controladores de vôo nos últimos meses. Resta evidente que houve, em todo esse período, uma pressão desmesurada das empresas pelas operações em situação-limite, à qual correspondeu a cumplicidade da Infraero.

Considerando-se que quase 92% do mercado é dominado pelas duas companhias, fica fácil imaginar também o temor do desemprego que marca o dia-a-dia de pilotos, atendentes de bordo e funcionários de apoio e manutenção. Esse, sabemos hoje, seria um componente importante de um quadro mais próximo da realidade, a ser apresentado no noticiário. Esteve presente em algumas páginas, mas nunca com o destaque que se deu à falta de ranhuras na pista da tragédia e a outros elementos vinculados ao desastre de Congonhas.

Escolhas editoriais

No décimo dia após o acidente, a imprensa apresenta o movimento "Cansei", liderado por empresários e instituições civis, como uma reação da sociedade – nascida na emoção da tragédia e sem conotação partidária – a toda uma sucessão de descalabros e carências sociais e políticas. Embora a campanha tenha produzido palavras de ordem mais amplas, como "Cansei do governo paralelo dos traficantes" e "Cansei de empresários corruptores", o "caos aéreo" era ainda o destaque associado ao noticiário sobre o lançamento da campanha.

O movimento, iniciado pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, tem grandes possibilidades de produzir como efeito uma maior qualidade do Estado, em todas as suas instâncias, se ao discurso de seus integrantes corresponder uma maior coerência com certas ações, como, por exemplo, uma melhor seletividade dos beneficiários de doações para campanhas eleitorais e a redução da prática de oferecer propinas a funcionários governamentais. Eles precisam, primeiro, dizer "não" ao caixa 2 em suas próprias organizações, e reduzir a proteção corporativista aos representantes de suas instituições envolvidos em escândalos, e a imprensa deve estar vigilante quanto a isso.

As repetidas declarações dos líderes do movimento, que imputam a uma ampla variedade de motivos sua decisão de fazer valer os desejos da chamada sociedade civil organizada, podem desencadear mudanças significativas nas instituições, mas para isso a imprensa precisa jogar um jogo limpo, fiel ao que se anuncia como motivação dos criadores da campanha "Cansei".

Diferentemente do que repetem alguns notáveis fazedores e observadores da imprensa, a afirmação de que os lordes da mídia persistem num viés de agressiva hostilidade ao presidente da República não equivale a conspiracionismo. A imprensa é de oposição, em grau que só se compara, historicamente, ao que se passou durante o curto governo de João Goulart – talvez por isso mesmo de tão curta duração, amputado que foi por um golpe militar fortemente apoiado na mídia.

Aparentemente, o Brasil de hoje não se pauta mais pelo que dizem os editoriais dos três jornais mais poderosos. Também há que se registrar que os lordes da imprensa têm direito a amar ou odiar, respeitar ou desprezar este ou aquele governante, este ou aquele personagem da cena política. Da manifestação dessas predileções, com mais ou menos talento, são feitas as páginas de opiniões. O problema começa quando o noticiário é contaminado por esse opiniário.

E isso ocorre principalmente porque, na atual estrutura dos jornais, revistas e demais meios de jornalismo, já não há espaço para as divergências em relação ao veio principal de opinião, o do proprietário. Assim como os pilotos e engenheiros da aviação civil ficam entre obedecer a ordens controversas em relação às melhores práticas e encarar o desemprego, para a imensa maioria dos jornalistas a escolha fica restrita entre amarrar as escolhas editoriais ao opiniário predominante ou partir para o desligamento – como se diz, ir cuidar de "projetos pessoais".

Veredicto apressado

Alguns jornalistas se alinham por convicção, outros por conveniência, e grande número porque são profissionais com grande talento para a prospecção de oportunidades na carreira, sejam elas aceitáveis ou não de um ponto de vista ético. Não que devessem usar o posto para fazer proselitismo, como ocorreu em muitas redações durante os anos 1980, em favor do partido que atualmente está no governo. Apenas se observa que, hoje, praticamente inexistem filtros eficientes entre a opinião dos donos e as escolhas editoriais dos profissionais que decidem a linha do noticiário.

Deste lado da sociedade, o risco visível é de que a imprensa perca valor em sua função social de fiscalizar os poderes, por uma insistência viciosa em imputar ao Executivo todos os males do país e creditar ao mercado ou ao imponderável todos os bons números da economia e as análises sobre a estabilidade institucional.

Se perder credibilidade e influência sobre a sociedade de modo mais amplo, como parece ter acontecido nas últimas eleições, e concentrar seu poder de convencimento em determinadas faixas da classe média, a imprensa estará produzindo um tumor de radicalismo e preconceito cujas conseqüências não se pode prever.

A complexidade atual das relações sociais não favorece exercícios de futurologia confiáveis, nem está habilitado este observador para tanto. Porém, é seguro afirmar, pela leitura cuidadosa do noticiário das duas últimas semanas, que a imprensa, de modo geral e quase unânime, procurou jogar no colo do presidente da República os cadáveres do Airbus que fazia o vôo JJ 3054. Apressou-se em dar um veredicto que em dois dias se revelou sem fundamento.
Não há como não dizer que, havendo uma guerra deflagrada entre a imprensa e o atual governo, a primeira vítima tenha sido, outra vez, a verdade.

Cansei



Reproduzido do site Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/)



Mauro Santayana


DEBATE ABERTO

O protesto de Dória Jr.

Temos que entender a ira de certas parcelas da classe média. A situação lhes é ainda favorável, mas elas se sentem estimuladas, pelo preconceito contra o operário, a organizar-se para os protestos vazios.
Mauro Santayana

O Sr. João Dória Júnior é um promotor de eventos, e vive disso. Não consta que ele tenha promovido quaisquer eventos, sem levar algum – entre eles a passeata de madames, com seus respectivos cães, pelas ruas de Campos do Jordão. São notáveis os encontros anuais de celebridades que organiza na ilha de Comandatuba, pagos pelas bolsas mais recheadas e generosas do grande empresariado nacional e multinacional. Seu pai, parlamentar nacionalista, foi também grande publicitário. O Sr. Dória Júnior, ligado ao setor, sabe o valor das comissões, e sempre leva a sua parte, como é natural nesse tipo de atividades. Por isso, cabe a pergunta: alguém teria pagado pela organização da passeata dos ricos e dos alienados da classe média, realizada domingo em São Paulo? Quem seriam esses financiadores?Business is business, e cada um se vira como pode. Mas não vale a pena discutir o Sr. Dória Júnior, cujas atividades são públicas.
O que temos a considerar é o que está por detrás desses movimentos. Depois de várias tentativas, como as do Movimento “Quero Mais Brasil”, insistem nos mesmos métodos usados pela direita em nosso país em 1964 e no Chile, em 1973. Mas só os néscios podem encontrar semelhanças entre aqueles tempos e os nossos. É bom começar pela situação internacional.
Naqueles anos, em plena guerra fria, os Estados Unidos, assustados com a perspectiva de que o exemplo de Cuba se alastrasse pelo continente, empenharam-se em comprar os parlamentos e os exércitos de todos os países. O pai do Sr. Dória foi dos que denunciaram a ação dos agentes norte-americanos e seus cúmplices nativos e, por isso, teve seu mandato cassado. Hoje, a situação é outra. Embora se preocupem com a Venezuela de Chávez e com a Bolívia de Morales, os norte-americanos não se encontram tão preocupados assim com o Brasil. Seus negócios não são ameaçados aqui, mesmo porque eles perderam a posição que tinham no passado, tendo em vista a invasão dos capitais ibéricos à América do Sul. Eles tentam agora estabelecer melhores vínculos, comerciais e políticos com o Brasil, e contam com o governo Lula, que lhes está abrindo a perspectiva de contar com um vasto canavial em terras nacionais. Ao contrário do que se pensa, eles farão tudo para garantir a estabilidade do atual governo, em que podem confiar.
Há quem veja, na crise aérea, alguma coisa parecida ao lock-out dos caminhoneiros no Chile de Allende. É preciso lembrar que Allende procurava construir realmente um sistema socialista no Chile. Como era democrata, acreditava, sinceramente, que era possível realizar o seu projeto sem violar o sistema eleitoral republicano. Contava com o apoio das grandes massas populares que se sentiam estimuladas a defender a nova dignidade adquirida. Estive em Santiago em março de 1973, quando se realizaram as últimas eleições parlamentares vencidas pela esquerda. A situação econômica, infelizmente, era desastrosa, em conseqüência da intervenção solerte dos Estados Unidos e da fuga de capitais que se seguiu. Amedrontados, os pequenos burgueses deixavam o país, e era possível comprar apartamentos por menos de mil dólares em Santiago. O abastecimento era precário, mas os trabalhadores não haviam perdido nada – mesmo porque, em qualquer lugar de Nossa América, os trabalhadores quase sempre não têm o que perder. Ao contrário, estavam, mesmo com as dificuldades do mercado, comendo melhor. Recordo-me de haver visitado, em seu gabinete, o Ministro do Trabalho, Luis Figueroa, que eu havia conhecido em Praga anos antes. Figueroa, como velho comunista, sentia o perigo no ar. Tentava conter os extremistas, muitos deles agentes provocadores a serviço de Washington. Ele me disse que a economia chilena era vulnerável, baseada na mineração, cujos preços estavam sob controle dos cartéis dos grandes compradores, os principais jornais chilenos se encontravam sob o comando das grandes famílias, aliadas aos ianques. E que a pequena classe média, que antes parecia solidária com os trabalhadores, estava, em razão disso, mudando de orientação. Era necessária uma decisão rápida: ou se impunha logo o sistema socialista, ou se moderavam o discurso e a ação do governo. O fato é que ele via incompatibilidade entre o processo eleitoral, já viciado, e o projeto de socialismo. O aprofundamento das medidas revolucionárias não lhe parecia possível, porque não se podia confiar na fidelidade das Forças Armadas chilenas. Sai de seu gabinete certo de que o sonho acabaria logo, depois de termos almoçado frugalmente, em sua própria mesa de trabalho, com os dois pratos de comida trazidos de um restaurante popular, próximo do Ministério. Ao despedir-me, Lucho, como era conhecido, abraçou-me dizendo “a ver se todavia nos vemos en la vida”. Não nos vimos. Exilado na Suécia, Luis Figueroa morreria três anos depois.
Naquele clima, não foi difícil aos golpistas manobrar com as minorias da direita organizada. No Brasil, seja por que razões for, a situação é outra. Embora os problemas sociais ainda sejam graves, com a disparidade terrível entre ricos e pobres e a acumulação acelerada do capitalismo, a miséria está sendo combatida. É claro que seria melhor dar empregos do que subsídios da Bolsa-Família, mas – conforme dizia Herbert de Sousa, o Betinho, quem tem fome, tem pressa. Pouco a pouco estamos vencendo dificuldades muito antigas, como a da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança é a mais efetiva ação de solidariedade de nossa História, com o envolvimento da própria população pobre.
Temos que entender a ira de certas parcelas da classe média. Elas têm vivido como vivem os ricos europeus. Contavam – e ainda contam, mesmo com menos facilidade – com servidores domésticos dóceis e mal pagos. Durante os governos militares, puderam comprar apartamentos e construir casas com juros subsidiados pelo BNH. Durante o governo passado, puderam consumir mercadorias importadas a preços irrisórios, em conseqüência de moeda supervalorizada pelo artifício dos mais altos juros do mundo. A situação lhes é ainda favorável, mas elas se sentem estimuladas, pelo preconceito contra o operário, a organizar-se para os protestos vazios.
O apelo contra a corrupção é o mais cínico de todos. Temos o dever de combater toda e qualquer corrupção de todo e qualquer governo. Há ladrões no governo Lula? Que os identifiquemos e os denunciemos ao Ministério Público e à Polícia Federal. Devem ir para a cadeia, como quaisquer delinqüentes. Mas os partidos que estão, por detrás do Sr. Dória Jr., manipulando a alienação e a desinformação da classe média, não têm lastro moral para combater a corrupção. Todos eles tiveram e têm os seus corruptos. No dia em que soubermos o que houve durante o governo chefiado pelo PSDB, o mundo cairá sobre as nossas cabeças. O que se dizer do comportamento ético do PFL, que um dia foi PDS; do PDS que um dia foi Arena; da Arena que um dia foi UDN?
Que desfilem as madames, se possível levando seus cãezinhos de estimação. O Sr. Dória Júnior que fature o que puder faturar em sua atividade de promotor de festas. Só podemos discordar do verbo usado. Uma coisa é “cansar-se” de ver um trabalhador no poder. Outra é cansar-se, como se cansam os operários e lavradores, de trabalhar a vida inteira e aposentar-se com menos de um salário mínimo. Os agitadores da classe média alta não podem estar cansados, pelo simples fato de que não sabem exatamente o que é trabalhar. Enquanto eles passeiam, com cães ou sem cães, o Brasil nada deve ao FMI, a dívida externa é inferior às reservas internacionais, as exportações crescem, e o povo vive bem melhor. E, mais ainda, os empresários nacionais (com a exceção dos incompetentes) estão satisfeitos com a administração da economia.





Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

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